Thursday, January 2, 2014

Era (mais) uma vez …um Convento do Espinheiro

Como muitas histórias do nosso imaginário, as histórias que hoje se vivem e constroem e delas se contam em folhas de papel, a história comemorativa de um final de ano pode bem começar por, era uma vez…
Os anos sucedem-se, uns após os outros deixando a perceção de que cada um de nós cumpriu o nosso dever enquanto seres habitantes deste planeta. Fazem-se os balanços do que se fez, do muito que gostaria de se ter feito e fica em perspectiva e a surpresa do que nos espera no futuro. Cada ano que passa representa uma marca na vida de cada um de nós. As experiências que vivemos são avaliadas pela sua duração, numero e intensidade e escrutinadas para delas se extraírem as boas sensações, as recordações e por ventura os skills que nos enriquecem e nos deixam mais bem preparados para os novos dias das nossas vidas. Como data marcante pelo seu simbolismo e forte representatividade na vida de todos os habitantes do planeta, o final de um ano é comemorado por todo o mundo com múltiplas facetas de acordo com a imaginação e as crenças desenvolvidas pela riqueza antropológica 
e cultural dos habitantes da terra. Fazem-se desejos, vestem-se trajes de gala, preparam-se ementas especiais e brinda-se à paz, à saúde, ao amor e à prosperidade. As comemorações são preparadas com requinte, alegria e imaginação. Cada um com o seu contributo constrói cenários, prepara discursos e delicia-se com a presença dos familiares e amigos. Tudo isto é acompanhado com música a gosto, confettis, chapéus, apitos e tudo o que possa contribuir para incrementar a alegria de fazer parte desta noite memorável. Nada disto fica completo sem o memorável, estrondoso, contagiante e colorido fogo-de-artifício. Este desenha nos céus imaginários que constroem figuras e ornamentos para lá do que é possível prever. Por cada projéctil os céus iluminam-se e fazem-se expressões admiráveis de alegria e espanto e pensa-se no valor e na beleza da vida e desejam-se promessas de esperança no 
futuro. Desta forma, o mundo prepara-se para deixar inscrito nos registos da história o ano que finda e recebe com expressões de vivacidade o novo ano que está para chegar. A nossa história, este ano, inscreveu-se ela também em mais uma experiência marcante nas nossas vidas e que permitiu alimentar de forma grandiosa o banco das nossas memórias. Após algum tempo de pesquisa onde se relacionaram factores como a distância, organização, menu e programa de réveillon, a decisão emanou com facilidade pelo Convento do Espinheiro que, felizmente já fazia parte do nosso espólio das boas experiências da vida. E na tarde de dia 31 de dezembro rumámos, debaixo de um forte temporal, ao nosso templo (Convento) do requinte e do glamour que esperávamos para receber o ano de 2014. À chegada esperavam-nos dois 
colaboradores com um sorriso rasgado desejando as boas vindas com o auxílio de chapéus 
e de todos os esforços para minimizar as consequências da forte chuva que se fazia sentir. Protegidos do temporal, fomos calorosamente recebidos na receção enquanto os colaboradores cuidavam das bagagens e do estacionamento do nosso carro. Um delicioso licor de poejo e frutos secos faziam as honras de abertura enquanto trocávamos alguns apontamento de conversa e eu reparava no desfibrilhador estrategicamente colocado na parede. Para quem não anda ao corrente destas coisas que fazem parte do meu dia a dia, este é um equipamento de fácil utilização que incrementa a taxa de sobrevivência em mais de 60%, de uma vítima em paragem cardíaca. Apesar de não ter dificuldades na sua utilização é necessária uma 
formação própria para, em caso de necessidade, o reanimador saiba executar os procedimentos de acordo com a leges artis. Na maioria dos países da Europa, estes equipamentos encontram-se em locais públicos, para serem utilizados por leigos treinados em suporte básico de vida. Em Portugal a desfibrilhação deu os primeiros passos em agosto de 2009 com a publicação do decreto-Lei 188/2009. Fiquei feliz por perceber que também o grupo de hoteis da cadeia Starwood Hotels, leva a segurança dos seus clientes muito a sério. Atribuídos os alojamentos, foi tempo de pequenas organizações que se prendiam basicamente com os trajes para o cenário da noite. Como chegámos relativamente tarde houve apenas tempo para uma visita guiada pelo Convento que fez as delicias de todos e principalmente do nosso filho André, que apesar dos seus 11 anos é grande apreciador e conhecedor de história. Enriquecemos os nossos conhecimentos com o magnífico discurso da nossa guia que nos contagiou com a sua simpatia e conhecimento em pormenor de cada detalhe daquele magnífico espaço. Soubemos que segundo a história, a designação do convento foi 
atribuída ao aparecimento de Nossa Senhora que terá surgido a um pastor em cima de um espinheiro em chamas. A partir desta aparição, o local passou a ser de devoção e o então bispo da Diocese de Évora, D.Vasco Perdigão, terá mandado erguer um convento que entregou aos frades Jerónimos. O Convento passou então a ser frequentado pelos reis de então sobretudo os da dinastia de Avis, que tinham muita devoção pela Virgem. A construção data do séc.XV, no reinado de D.Afonso V. D.João II herdou do seu pai a devoção pela Senhora do Espinheiro e mandou construir uma hospedaria para que a corte que estava em Évora lá pudesse pernoitar. Em 1490 D. João II com o auxílio das cortes de Évora preparou o casamento do seu filho D.Afonso com a Princesa D.Isabel, filha de reis católicos. Reza a lenda que nas casas do mosteiro, casa de Nossa Senhora e de 
tanta devoção o príncipe fez ajuntamento com ela, situação que foi muito estranhada para a época. Nessa noite caiu uma grande tempestade e uma ameia da igreja caiu, o que levou o povo a pensar que se tratou de um castigo pelo acto pecaminoso cometido. Hoje esse aposento é conhecido como o quarto da princesa e os actuais noivos são aconselhados a não pernoitar nessa suite para manter viva a tradição. E resumindo a história, sabe-se que o convento esteve em abandono mais de 100 anos levando à deterioração e destruição e saque do seu riquíssimo espólio. Encontra-se aqui sepultado D. Vasco Perdigão bispo da diocese de Évora, fundador dos conventos de Santa Clara e Nossa Senhora do Espinheiro, que não querendo receber neste último o título 
de padroeiro, foi sepultado fora da capela-mor, deixando o padroado a quem oferecesse grandes rendas ao mosteiro. Encontram-se ainda aqui os restos mortais dos condes de Basto, D. Digo de Castro e sua esposa D. Maria de Távora, (na pedra desta última o sobrenome Távora encontra-se picado para permanecer dissimulado por esta família abastada atentar contra o poder do Marquês de Pombal) e ainda D. Lourenço Pires de Castro e D. Violante de Lencastre, entre outras personalidades. Com a extinção das ordens religiosas masculinas (1834), o convento foi desocupado, passando à posse do Estado Português, até ser vendido a particulares por quantia insignificante. Nesse período, o conjunto entrou em decadência, até que foi adquirido por Manuel Gabriel Lopes, que o fez 
restaurar na sua quase totalidade, tornando-o outra vez habitável. A capela de Garcia de Resende também passou a ser suportada por personalidades locais que ali celebravam festas religiosas. Atualmente requalificado como um hotel de cinco estrelas, o conjunto mantém a mesma traça arquitetónica. A antiga adega deu lugar a um restaurante gourmet, a cozinha dos monges foi transformada em piano-bar e a cisterna gótica adaptada a espaço para provas de vinhos e produtos regionais. Após esta viagem na história, restava-nos tempo para nos equiparmos a rigor pois aproximava-se a hora do cocktail. Entre vestidos de gala, maquilhagem e fatos tudo tinha que estar perfeito para os momentos de requinte que nos esperavam. O cocktail servido na antiga cantina dos monges, hoje transformado em piano bar, é um espaço inspirador, de tranquilidade e recantos de conforto. Neste espaço, os monges comiam em bancos voltados para a 
parede para não se distraírem durante as refeições e para dedicarem toda a sua atenção à leitura da bíblia, feito a partir do púlpito que ainda hoje existem magnificamente restaurado. Do cocktail faziam parte diversas iguarias cuidadosamente preparadas e de apresentação exemplar, podendo-se provar pequenas panquecas com queijo de serpa, de sabor único, espetadinhas de borrego em marinada de ras hanut ou alegoria de bacalhau com e ouriços-do-mar, entre outros, tudo acompanhado com espumante Ervideira Rose muito fresco e sumo para as crianças. Este pequeno momento de confraternização serviu para a ambientação dos clientes e para sentir os primeiros momentos do que viria a ser uma grande noite de reveillon. Chegada a hora do jantar, fomos conduzidos, para espanto de todos, ao exterior do hotel, através dos jardins e sobre uma passadeira vermelha, à sala onde iria decorrer a gala de fim de ano. O 
espaço era magnífico e decorado com requinte, com mesas redondas adornadas com candelabros de velas douradas. Desde a receção que sabíamos o numero da nossa mesa, pois a informação era disponibilizada num LCD. Tivemos como companhia na nossa mesa a família Santos que se revelaram excelentes companheiros de festa. A bebé Gabriela, filha e neta da família Santos, fez as honras e as graças da noite com os seus 3 anos e vivacidade própria destas idades. A abertura da sala foi presidida por um agradável cumprimento de boas vindas do Diretor do Hotel, sr, Dinis Pires, que desejou a todos as boas vindas e deixou votos de felicidades para o ano de 2014. Seguiu-se o jantar que decorreu de uma forma extraordinariamente organizada e a abertura do menu iniciou-se com creme de champignon e vieiras braseadas num souflé de roquefort. Sobre a mesa e para acompanhar os diversos tipos de 
pão podia-se degustar manteiga de ervas finas e sapateira e abacate numa fragrância de caviar. O prato que se seguiu,amado por uns e detestado por outros, foi texturas de foie-gras e não só, com um cacau de São Tomé a finalizar. O Late Harvest da Herdade dos Grous constituiu uma experiência de degustação única e complementou de forma sublime o sabor forte e macio do foie-gras. Num autêntico ritual que se assemelhava a uma dança previamente coreografada, os colaboradores fortemente dedicados, retiravam pratos, preenchiam os copos e faziam chegar a cada mesa os diversos componentes da ementa. Percebeu-se que tudo foi preparado de forma meticulosa e organizada para que não se sentisse qualquer tipo de falha. O robalo abafado em água do mar, com ravioli e redução de hortelã da ribeira foi o prato seguinte no alinhamento do menu ricamente elaborado para a festa. O vinho esporão Reserva Branco 2012 que 
o acompanhou este prato, é um dos melhores vinhos brancos produzidos na Herdade do Esporão. Com o seu aroma rico e intenso com notas frutadas, de tangerina e pêssego, envoltas na subtileza da tosta das barricas, é cremoso na boca, com o paladar complexo, equilibrado, preenchido pela fruta, alguma mineralidade e um final longo e fresco, revelou-se uma experiência com intensidade para recordar e voltar a provar. Como corta sabores foi servido um sorbet de limão e espuma de tangerina que veio trazer uma nota fresca e equilibrada para dar seguimento ao clássico Bife Wellington aos aromas de presunto beloteiro que finalizada os pratos principais. O menu finalizou-se já muito perto das 23 horas com um tesouro de bolo financier num jus abaunilhado e pérolas dum caramelo conventual, simplesmente delicioso. Finda a requintada refeição, o DJ elevou o som e a pista encheu-se de animação com todos a dançar numa alegria contagiante. Quando faltavam 30 segundos para a meia-noite foi iniciado o countdown que finalizou 
numas zero horas com timing diferentes em cada uma das mesas com os confettis em explosões sequenciais e os brindes de alegria a fazerem tilintar os copos numa sinfonia heterogénea de satisfação plena. Seguiram-se 15 minutos de fogos de artifício nos jardins do hotel a fazerem deslocar todos para o exterior para assistir ao ritual de luzes, sons e cor. A partir deste momento a festa continuou com muita animação ao som de música dos anos 70, 80 e 90 habilmente colocada pelo DJ convidado. Cerca das 02 horas da manhã era tempo da ceia que foi servida no andar acima do piso onde decorria a gala. Um rico buffet onde não faltavam os queijos, mariscos, pregos e o tão nacional caldo verde que fez as delicias dos que haviam dançado horas até esgotarem as energias e as pernas começarem a ceder. Uma noite de sono retemperador num 
 quarto luxuoso e magnificamente decorado fez-nos acordar para o novo ano renovados e cheio de sensações de bem-estar. Na sala que outrora foi a adega, esperava-nos um conjunto de colaboradores com um sorriso e de uma prestabilidade contagiantes a desejarem felicidades e bom ano novo a todos. De uma forma descontraída e sem preocupações com o tempo iniciámos a primeira refeição do novo ano com um magnífico brunch, completo e diversificado que nos satisfez em pleno. Recordo o pormenor do aroma e do sabor da açorda, dos ovos mexidos e dos doces de Natal que complementaram o repasto requintado que foi brindado com champanhe para dar as boas vinda ao novo ano e à nova vida que todos vivemos em cada dia da nossa existência. E foi assim a história de (…) era uma vez, que passou a ser (…) foi desta vez, um dos magnífico reveillons da nossa vida.





L'and Vineyard Hotel

Sunday, December 22, 2013

Soube… que nem ginjas (Vila de Óbidos Art Garden Hotel &SPA)

Eis o que acontece quando se unem esforços, vontades, sonhos, cultura e espírito empreendedor de um Professor de História e de uma Engenheira do Ambiente. Deste casamento de virtudes nasceu o Vila de
Óbidos Art Garden Hotel Rural & SPA (http://www.hotelviladobidos.pt/pt/). O domínio na área do turismo diferenciado e de qualidade nasceu muito antes deste projeto, com a aquisição morosa e complexa de uma casa de turismo de habitação na Serra de El’Rey, a Quinta do Juncal (http://www.quintadojuncal.com) A casa data de 1886 (a mesma idade que a ponte D.Luis) e após anos de difíceis negociações iniciou-se o restauro. O trabalho meticuloso para preservar todas as originalidades obrigou a um trabalho diário de serviços de carpintaria, ao longo de 3 anos, comandado por um mestre na área já com 80 anos. Finalizado o projeto, a sua divulgação veio e tem vindo a permitir o contacto com pessoas de todo o mundo que, com as suas genuínas formas de estar apreciam cada pormenor daquele espaço. Como a procura destes espaços de qualidade tem vindo a diminuir a projeção de hoje é para eventos de
grupos como festas, casamentos, batizados, etc. A traça tradicional obriga a um rigoroso trabalho de preservação para que se possa continuar a mostra no século XXI, a arte de construir, decorar e pintar dos outros tempos. Como a quinta se começou a revelar pequena os corajosos proprietários, pessoas cultas, sensíveis, diferenciadas, empreendedora e de muito bom gosto, avançaram com um projeto de maiores dimensões com o objetivo de trazer até à região oeste uma oferta de qualidade com uma identidade própria. Do sonho e da coragem nasceu o projeto do hotel. Mas edificar mais um hotel apenas para preencher um espaço e disponibilizar serviços na região não parecei a ser o indicador major deste projeto. Era necessário associar ao projeto uma ideia forte e original para o tornar diferente e se poder afirmar como uma alternativa aos outros espaços de qualidade com os quais a região oeste já se encontra equipada. Subjacente à ideia estava ainda a
vontade de construir algo que trouxesse modernidade a Óbidos que se afirma no país e no mundo como uma vila medieval que tão bem tem sabido crescer e manter-se à custa de ousados eventos cheios de originalidade (ex: festival do chocolate e Vila Natal). Para a projeção do edifício foi convidada a senhora arquiteta Ana Manuela Morgado que arrojou num projeto de linhas modernas, com bastante luz natural distribuindo alojamentos e serviços por 2 pisos. A conceção do projeto tem como pilares fundamentais a ruralidade e a ecologia, inserindo-se num espaço com cerca de 6 hectares onde se pode desfrutar da gastronomia, contactar com a arte ou simplesmente gozar o prazer de nada fazer. O diretor geral, o sr prof. Vasco Espírito Santo é professor de história e guiado pelo seu conhecimento e sensibilidade ousou disponibilizar os espaços comuns do hotel como galeria de arte onde artistas da área da escultura e da pintura, já com afirmação no mercado mas também jovens promissores, podem expor e vender os seus
trabalhos. Ao entrar no lobby e sobre o balcão da receção somos logo confrontados com uma escultura de uma bailarina esculpida em ferro (petit dancance etoile de Jean Paul), que dança para nós e nos chama com a sua delicadeza apenas resfriada pelo toque frio do material de que é feita. A sua presença faz-nos desligar do check-in e olhá-la para sentir a sua presença e pensar o quão original e heterogénea é a arte. Questões como: - em que estado de espírito estaria o artista da sua criação? Em que pensaria? Que experiência de vida terá? Porque a rodeou com uma saia de ferro como se estivesse a estrangula-la pela cintura? Questiona-mo-nos também sobre as diferentes sensibilidade para apreciar e interpretar estes pormenores que poderão originar diferentes construções de resposta, de acordo com a criação imaginária
de cada um dos que ousa interpretar as suas linhas, expressões e tendências de movimento. Mas a dominar o lobby encontra-se uma outra escultura que revela um imponente toiro esculpido num material prateado que nos toca pela sua grandiosidade e pela sua expressão quase real. Por vários pontos do hotel encontram-se outras obras de arte como um busto, a cleopatra, um violinista (guittarra) ou a enfante fille (estátua de uma grávida). Nas imediações no edifício principal existe outro espaço de grandes dimensões onde se podem realizar eventos de grandes dimensões com mais de 600 pessoas. Um lago artificial enquadra este segundo edifício e embeleza o espaço exterior. Na exploração do espaço exterior pode ainda encontrar-se um espaço multifacetado onde se podem realizar exposições, provas de vinhos e licores, reuniões ou eventos de divulgação.
Outra curiosidade é o Centro de Interpretação da Ginja, local que pretende implementar na região um laboratório para explorar e estudar este fruto, tão característico da região. Voltando ao interior do hotel…a sala comum é um espaço que alia, conforto, qualidade, luz e arte. A decoração permite a criação de vários espaços, que vão desde recantos propícios à leitura ou aos jogos de mesa. Para os mais contemplativos os confortáveis sofás convidam a olhar para as esculturas ou quadros que estão por toda a parte e fazer exercícios de interpretação que constituem autênticas experiências de confrontação de ideias e argumentos.
Nesta sala encontra-se ainda o bar e confortáveis cadeirões que permitem com adequada ergonomia utilizar equipamentos informáticos dos hóspedes. Junto ao balcão do lobby os clientes são anda convidados a experimentar um cálice do delicioso licor de ginja, que é imagem de marca desta região. A sala de restaurante é outro espaço imponente onde podem ser servidas deliciosas iguarias da rica gastronomia regional e não posso deixar de referir a originalidade do nome escolhido para o designar, apesar da frase já tão “feita” que é “...que nem ginjas...” que todos utilizamos quando nos referimos a algo de que gostamos muito, que muito apreciamos ou que nos assentou bem. O restaurante chama-se mesmo “que nem ginjas”. Nesta minha curta estadia tive ainda o privilégio de poder estar à conversa com a proprietária do hotel, a Sra. Eng. do Ambiente que me introduziu um pouco na história do local e do projeto, das dificuldades, dos sonhos e do que ainda anseia para o espaço para que o projeta tenha verdadeiramente a cereja/ginja no topo do bolo.
São estes pequenos momentos de contacto, que por esta altura da vida nos complementam o prazer de visitar e conhecer estes locais que de outra forma seriam apenas mais um hotel, um quarto ou um Spa. É nestes momentos que partilhamos ideias, trocamos opiniões, ouvimos a aprendemos com os exemplos daqueles que nestes país ainda ousam apostar, acreditar, investir e manter aceso o espírito empreendedor. 

Friday, September 6, 2013

Ecorkhotel - a arte da cortiça

Évora é uma das cidades apaixonantes deste país. Existem variadas as razões para a visitar. Évora é património da humanidade, todos sabemos, mas é também muitas outras coisas: é sabor, aromas, surpresa, simpatia, acolhimento e tantas designações quanto o 
imaginário pode definir. A pouca distância de Lisboa, Évora alcança-se aproveitando a tranquilidade da paisagem e a envolvencia dos sabores que a gastronomia do Alentejo proporciona. O património histórico divulgado desde a década de 80 pela classificação da Unesco, colocou a cidade de Évora no centro do mundo. Mas apesar da vaidade que o honroso título trouxe à terra e às gentes, a cidade não sei deixou adormecer à sombra de tão nobre distinção. Évora cresceu, conservou e arriscou afirmando-se no mapa da ciência, da gastronomia, do artesanato e do turismo. A oferta é hoje diversificada e de qualidade, fazendo da cidade uma excelente alternativa à capital e a outras cidades nas proximidades. Quem tem bom gosto há-de com 
certeza apreciar o desafio aos sentidos que é sentir a fusão dos aromas nas ruas quando se aproxima a hora do repasto. Comer nos restaurantes da cidade é uma verdadeira bênção para os sentidos. E neste panorama da oferta gastronómica e turística, Évora tem-se afirmado nos últimos anos como nenhuma outra cidade. Hoje a cidade oferece hotéis de 4 e 5 estrelas de grande qualidade que se afirmam pelo caracter próprio e distinto que surpreende quem aprecia conhecer e sentir os serviços que estes locais de lazer e de prazer disponibilizam aos seus clientes. Évora é tudo isto, o desafio aos sentidos, a vontade de voltar, para sentir, experienciar e partilhar 
enriquecendo os sentidos com novas e desafiantes sensações. Tenho o privilégio de conhecer a maioria dos mais recentes hotéis desta cidade jóia do Alentejo, todos eles referenciados em posts anteriores. Comecei pelo Convento do Espinheiro, depois pelo Mar d’ar Aqueduto e mais recentemente o novíssimo Ecorkhotel. Está por conhecer o Land’s & Wineyard, marca que se impôs com forte distinção e seleção apurada. Mas este post é dedicado ao Ecorkhotel recentemente visitado e merecedor de palavras de apreço e glória pela ousadia e coragem do projeto, pela nobre distinção que faz à cortiça alentejana, pela elevada qualidade dos serviços que 
disponibiliza, pelo arrojado da arquitetura que invadiu a tranquilidade da paisagem alentejana polvilhada de oliveiras e sobreiros na Tapada da Mata muito perto da entrada da cidade. O Ecorkhotel nasceu da sinergia de esforços de três sócios com preocupações ambientais e atrevimento arquitetónico. Dos muitos pormenores a merecem referência aquele que se destaca é a cortiça. Na realidade é o primeiro hotel do mundo totalmente revestido a cortiça. A unidade é constituída por um edifício principal, aquele que é revestido a cortiça, Aqui estão sediados todos os serviços comuns, desde o lobby, de dimensões generosas e a fazer lembrar uma 
sala sofisticada no meio da planície alentejana. O restaurante o Cardo encontra-se ao fundo do lobby, depois de se percorrer um corredor com vista para o pátio interno e decorado com um enorme banco em jeito de poial de cor branca e adornado com almofadas de cores suaves. A receção e o check-in são personalizados e calorosos enquanto se degusta um espantoso licor de amora. A bagagem é transportada de buggy para as suites que se encontram destacadas do edifício principal, alinhadas em ruas calmas que serpenteiam pelo meios dos sobreiros e das oliveiras. O simpático e prestável João Rato, condutor do buggy e self-mad-man 
acompanhou-nos até à suite diligenciando todas as informações e funcionamento dos equipamentos da suite. As suites são de um design tão arrojado que não é possível não refletir sobre como tão elegante arquitetura e que em nada se integra com a arquitetura do Alentejo, afinal se enquadra tão bem naquele lugar cheio de sol e tranquilidade. Cada suite é um cubo branco com um quarto, uma sala, Wc e um terraço exterior generoso onde se pode aproveitar a calma daquela herdade e o aconchego do sol do Alentejo enquanto se apreciam as folhas das oliveiras, a casca dos sobreiros e os olhos se divertem a observar a dança dos raios solares a bailarem por entre 
folhas, caules e troncos. O entardecer neste local é mágico e a cor do sol torra o horizonte enquanto se despede para mais uma noite de tranquilidade. As suites de decoração minimalista são muito confortáveis e a climatização refresca-nos e conforta-nos das elevadas temperaturas do exterior. Como sou apaixonado pelo Alentejo apreciei em pormenor o soalho rústico do Wc, a manta sobre a cama o banco de 3 pés em forma de cepo no Wc e o feliz casamento destes elementos de caráter tão alentejano com as cadeiras de realizador ou o sofá de linhas direitas. Toda esta envolvência e o clima que se fazia sentir apelavam para uma tarde de sol na plenitude do terraço do edifício principal onde a piscina é o elemento dominador. Nadar 
naquele oásis de águas brilhantes e límpidas com perfil infinito para a paisagem é uma experiência marcante. A tarde foi passada entre banhos de piscina e passeios de bicicleta que se encontram disponíveis de forma livre junto da receção e na garagem aberta referenciada com numero 10. Após uma simpática conversa com o João que nos integrou no projeto do hotel e após uma noite tranquila em que os únicos sons possíveis de ouvir era o cantar dos grilos, esperava-nos um pequeno-almoço irrepreensível que permite começar o dia com uma experiência gastronómica rica e variada onde não falta a tábua de queijos regionais e o melhor pão de fatia do mundo, o pão alentejano. A sala do restaurante o Cardo tem cerca 
de 90 lugares sentados e uma deslumbrante paisagem para a planície. O elemento que se destaca na sala do Cardo é uma parede totalmente forrada em placas de cortiça de espessuras variadas e sobrepostas destacando-se desta em relevo de diferentes profundidades. Todo o complexo e os seus elementos característicos magnificamente enquadrados na paisagem são elementos fulcrais que fazem deste local um projeto sofisticado que foi pensado com preocupação ecológica e sustentabilidade. As linhas direitas que edificam a estrutura do edifício central e das suítes desenham linhas e aberturas que permitem jogos de sombra e de 
luz que complementam a decoração exterior e permitem olhar o céu e as estrelas por ângulos arrojados e pouco habituais desenhando geometrias que apelam à imaginação e que deixam nostalgia e vontade de voltar.

Restaurante Volver…de Carne e Alma by Chakall

Por vezes damos por nós a “viajar” levados por pensamentos velozes que nos levam para outros tempos ou experiências vividas em épocas diferentes e que, por alguma razão, ficaram na nossa memória. Uma experiência, um aroma, um sabor, uma música, qualquer razão poderá ser o detonador de tais ideias e pensamentos que afloram das profundezas da memória para nos voltar a mostrar que aquilo que já vivemos afinal se encontra vivo 
e presente. Por vezes é tão real que parece verdadeiramente recente. Surge com a mesma ordem, as mesmas cores e a mesma intensidade. As experiências que nos preenchem enquanto seres humanos e as recordações que temos delas são o mais valioso património da nossa alma. Voltar ao passado pode por vezes ser doloroso, especialmente se a vivência foi desgastante e triste, mas revivida à distância pode trazer tranquilidade e uma nova visão mais adaptada. Mas se, por outro lado, aquilo que experimentámos foi intenso e trouxe felicidade, recordar torna-se um exercício de satisfação, podendo provocar euforia e projeção para outros pensamentos e momentos de sonho e criatividade. E criar é mais outra das riquezas do pensamento humano. A criação é o motor do desenvolvimento, tem possibilidades infinitas e acompanhada pela imaginação configura ambientes de transformação que modelam a natureza individual e social. Nunca sabemos quando somos surpreendidos por estes estados de memória que nos agitam, tal como não sabemos como 
vamos gerir esta informação. Será que é diferente quando estamos sozinhos? Serão mais dinâmicos quando estamos com pensamentos evasivos? Surgem mais intensos quando despoletados por um determinado som ou ambiente? E será diferente a forma como aproveitamos e modelamos essas memórias do passado? Que extraímos destes estados de alma? Serão eles o motor da criatividade e a plataforma necessária para a génese de novas ideias?  As respostas a estas questões são difíceis de encontrar porque não dominamos a sua génese. Serão estados da alma ou da carne? Volver (voltar) ao passado pode ser a força motriz que nos alimenta todos os dias. São as experiências que acumulamos que nutrem grande parte dos nossos momentos de comunicação. Falamos dos nossos momentos em família, com os amigos e colegas e hoje partilhamos a nossa vida nas redes sociais com o mundo, passando os estados de carne e alma a momentos de comunicação virtual. Num destes momentos de pensamentos evasivos e de confronto com o passado ocorreu-me um dos meus muitos momentos de imaginação. Ouvia rádio a caminho do trabalho quando na M80 era divulgado o passatempo Música com Gosto. Já ouvira a divulgação há alguns dias mas na complexa tarefa que é a gestão das 24 horas do dia, a visita ao site da rádio era constantemente protelada. Uma noite, ao serão, visitei a rádio e concorri ao passatempo. Gosto de escrever e imaginar para mim é um exercício 
de excelência pois faz-me descartar do peso das múltiplas tarefas do dia. A decisão de concorrer a concursos é espontânea pois constitui um notável exercício e um desafio à criatividade. As notas introdutórias definem a orientação das regras, o título do concurso e o apelo à criação dos candidatos. A ideia deste passatempo era harmonizar os gostos e os sentidos. O mote é a música! O Cheff convidado foi o Chakall que foi desafiado a construir uma receita com base na música Everybody Hurts dos REM. Aos candidatos era pedido que sugerissem uma ementa com base  numa música com significado. Difícil para uns, imaginativo e desafiante para outros. As ideias fervilham na minha cabeça e as construções frásicas sucedem-se à velocidade dos pensamentos. Muitas ficam perdidas ou deformadas pelo tempo por não ter capacidade de as registar ao momento. Mas as ideias mestras ficam lançadas e delas nasce um novo fruto tantas vezes diferente do primeiro que julgava perfeito e adequado para vencer. Como não há limites para a 
imaginação nem limites para a criação de um Cheff, lançar um tema musical e adicionar-lhe uma receita que de algum modo a represente é uma mistura de uma criação imensa. A música que escolhi foi Porto Covo do carismático Rui Veloso. É uma música cheia de simbolismo para mim que vivi no Alentejo e cresci junto à costa alentejana. Quem vive aqui dificilmente se habitua a outro local, pois para além da paisagem, as falésias e o mar, o perfume que se produz na junção da maresia com a flora dunar é algo que se entranha para sempre na alma. Estes fatores que nos marcam para sempre associados à degustação das iguarias com que o mar nos presenteia nunca mais nos abandonam. O peixe fresco ainda a saltar, pescado à cana ou comprado na lota, os percebes, as navalheiras ou os polvos constituem apenas uma pequena amostra do que nos liga àquele mar para sempre. Para além da Costa Vicentina ser um dos lugares 
mais protegidos, selvagem e em estado natural da Europa, o pescado do mar português foi recentemente classificado por vários Chefs de craveira internacional, como um dos melhores do mundo. Haverá mais motivos de orgulho? Voltando ao concurso Música com Gosto, com o patrocínio da M80 e da Revista de Vinhos, e após a breve justificação para a música, lancei um dos pratos que mais aprecio, o sargo assado que com a música e as razões da escolha saiu assim: “Sugestão de prato: Sargo assado (brazeado) no carvão polvilhado com alhos, aroma de coentros regado com molho de limão. Música: Porto-Côvo de Rui Veloso. Razões: O carisma inconfundível do grande Rui Veloso transporta-nos para a imensa beleza da costa alentejana. A letra projeta-nos para a imensidão do mar azul e o olhar perde-se no brilho prateado das águas elevando a dimensão sensorial que nos projeta para as infinitas belezas do mundo, para o mundo dos sabores e pelo gozo de chegar a lugares invulgares no planeta”. Passado algum tempo fui 
contactado por e-mail com a excelente notícia de que tinha sido um dos vencedores do passatempo. O prémio naturalmente foi um requintado jantar no restaurante Volver do Cheff Chakall. Feita a reserva rumámos até à Rua Luis de Freitas Branco nº 5 D no Lumiar onde, do mundo para deleite dos portugueses apreciadores de boa comida, o Cheff instalou a sua catedral de degustação. Fomos recebidos com o profissionalismo a que já nos habituámos em ambientes distintos e requintados como este. A sala é de dimensões generosas e decorada em tons discretos que vão dos castanhos aos verdes, amarelos e beijes. A luz é suave e a cortar esta harmonia de tranquilidade encontramos alguns apontamentos que provocam o desvio do olhar para procurar outra harmonia provocadora das cores fortes que vão do verde alface nos bancos de balcão aos cadeirões multicoloridos da requintada sala onde se aguarda por mesa. A 
parede principal da sala encontra-se decorada com tapeçarias que fazem lembrar cactos e no lado oposto desta o móvel garrafeira ocupa um lugar de destaque. Cada mesa é servida por um pequeno candeeiro que emite luz de cor avermelhada que confere a cada espaço comensal um ambiente romântico e propício à concentração para desvendar os mistérios e os segredos criados pela imaginação do Cheff. A revista de vinhos estava aberta na página 115 onde estava em destaque o passatempo e o menú com que fomos presenteados. Para aperitivo (amuse-bouche, em francês) foram-nos servidos scones de azeitonas com manteiga queimada. A conjugação do toque de azeitona com a manteiga conferia àqueles scones um carácter particular com uma distribuição global e intensa na boca. De seguida foi-nos servido um Ceviche Amazónico confecionado com garoupa crua e cubos de manga, adornado com finos fios de cebola estaladiça e 
acompanhado com deliciosos quadrados de batata-doce. O vinho escolhido foi um verde Quinta do Ameal de 2012. Como prato principal a criatividade do Cheff conduziu à preparação de polvo à “Oaxaca” salteado com bacon, cogumelos e malaguetas acompanhado de puré de espinafres e banana. O toque doce da banana e o picante discreto das malaguetas conferiam ao prato um gosto elegante com requintes de mestria e ciência. Acompanhámos este prato com um Tinto Argentino Fabre Montmayou Gran Reserva de 2009 que casou na perfeição com os sabores escondidos por entre o molusco e os espinafres. A finalização do menu foi concretizada com um Cheesecake “Volver” de goiaba e amêndoas torradas. Enquanto degustámos o delicioso menú esforcei-me para entender em cada passo da degustação a relação do que 
comemos com a música Everybody Hurts. Não tivemos a oportunidade de questionar o Cheff sobre como a sua sabedoria e experiência gastronómica o inspiraram para relacionar scones, ceviche, polvo e cheesecake com a música em causa o que teria sido muito interessante. Mas a experiência foi sem dúvida intensa e muito gratificante deixando vontade de continuar a apelar à criação e a dar largas à imaginação. A alma ficou mais rica, a carne agitada com vontade de novas aventuras pelo que volver é sempre uma boa opção.

Thursday, August 29, 2013

Lisboa, luz, o fado, a tradição


Lisboa nasceu de uma "citânia" localizada a norte do actual castelo de S. Jorge. Este seria um dos muitos núcleos humanos desenvolvidos no período pré-histórico. Através da acção povoadora dos romanos (195 a.C.) e inerente desenvolvimento socio-económico, em breve lhe seria atribuída a classificação de "município",  usufruindo do seu equipamento urbano:  monumentos, teatros, termas. Existia um cruzamento de quatro estradas da rede viária romana : três para Mérida e uma para Bracara (Braga). A sua característica de "opidum", onde os romanos centram a sua defesa estratégica, resulta do reflexo do terreno por um lado, e da protecção natural perante o estuário do Tejo e o braço deste rio que então se desenvolvia a ocidente e penetrava profundamente no território. Olisipo (começou assim por se designar a cidade) caracterizava-se pela existência de um núcleo de população fixa defendida pela soldadesca.  Nos seus arrabaldes foi-se agregando um bom número de famílias cultivadoras da terra que, em troco de pão, fruta, vinho, legumes e gado, recebiam protecção e defesa.  A  crise do séc.III que minava e fragilizava a sociedade romana tem os seus reflexos em toda a Península Ibérica. As sucessivas invasões de novos povos, quer germanos em 500 d.C. (visigodos, suevos), quer árabes em 700 d.C., transformam a fisionomia da população. Devido ao clima de insegurança e de guerra, a cidade adquire uma feição muito peculiar: fortaleza onde se refugiam os habitantes fugidos do avanço dos exércitos cristãos. É uma população de ricos proprietários agrícolas e comerciantes, que se transferem para o interior das muralhas e constroem uma cidade  opulentíssima pelo trato e mercancia dos portos de África e Ásia. No período da Reconquista Cristã, a Lisboa muçulmana é uma cidade cobiçada e várias vezes atacada e ocupada pelos exércitos cristãos (ocupação por Castela em 1000 d.C.).

PRIMEIRA DINASTIA
Em 1147, D. Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal, conquista a cidade. Com a   participação cristã, dá-se a  expansão de Lisboa para além das suas muralhas. Herdados do passado existiram dois arrabaldes - a Baixa e Alfama. O braço do rio desaparece definitivamente no séc.XIII .
D. Fernando, então Rei de Portugal,  perante as ameaças de Castela (Espanha), cria uma nova muralha de defesa designada por "Cerca Nova"(1373-75).
Dos 16 Ha do período mourisco a nova cidade passa para 101,65 Ha ou seja 6,5 vezes maior. A fixação definitiva da capital do reino, e portanto da corte, dá-se no reinado de Afonso III.
Lisboa é então o núcleo de um importante sistema económico de trocas, localizando-se as pequenas propriedades em que predomina a cultura hortícula, na proximidade imediata, facto que poderá ter influenciado a localização dos dois mercados centrais de hortaliças: Praça da Figueira e Praça da Ribeira.

SEGUNDA E TERCEIRA DINASTIA
D. João I , Rei de Portugal, cria a primeira urbanização na colina do Carmo (1400). Pretendia assim dar satisfação às necessidades de uma população sempre crescente, expropriando para tal os campos.
A corte de D. Manuel I abandona o castelo e fixa o Paço Real no Terreiro do Paço, onde se centrou toda a vida comercial da cidade (1500). Lisboa era então o mais opulento centro comercial de toda a África e de uma grande parte da Europa. É abundante de todas as mercadorias;  tem ouro e prata. Não faltam ferreiros.  Nada há nela inculto ou estéril; antes, os seus campos são bons para toda a cultura...os seus ares são saudáveis, e há na cidade banhos quentes. ... o alto do monte é cingido por uma muralha circular, e os muros da cidade descem pela encosta, à direita e à esquerda, até à margem do Tejo.
Nesta altura surge no Bairro Alto o primeiro loteamento (renascentista) que transforma hortas e pomares em ruas e casario, crescendo repentinamente como bairro popular, embora posteriormente se transformasse numa zona onde a aristocracia viria a construir os seus palacetes.O Bairro Alto marca a passagem do séc. XVI para XVII na vida urbana de Lisboa e a aquisição de uma consciência urbanística e arquitectónica.

DEPOIS DO TERRAMOTO DE 1755
1755 marca para Lisboa a data de um período de desenvolvimento. O terramoto (no dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, às 10h), e o incêndio que se lhe seguiu, devastaram dois terços da totalidade dos arruamentos e terão destruido três mil casas das vinte mil existentes.O terramoto abrangeu toda a zona da Baixa, os bairros do Castelo e a zona do Carmo, ou seja, as zonas mais intensamente urbanas da cidade.
Em sua substituição iria nascer a Lisboa Pombalina, com um urbanismo sujeito a regras fixas e de um cientismo pragmático que provoca admiração em todo o mundo.  O seu principal impulsionador foi Marquês de Pombal, o Primeiro Ministro do Rei D. José, coadjuvado pelos arquitectos e engenheiros, Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel (1755-76).
O plano, sem dúvida inovador, baseia-se numa direcção planificada de ruas alinhadas, cujas opções arquitectónicas assentam em  regulamentos de construção,  tendo em atenção conceitos básicos de resistência às acções sísmicas.O sistema urbanístico obedecia a traçados de eixos de composição em que a simetria era tema obrigatório, pretendendo-se usualmente destacar nos extremos, monumentos  ou estátuas: a Rua Augusta com o arco triunfal, através do qual, no seu eixo, se colocou a estátua de D. José.
Pombal criou incentivos de interesse à nova classe da burguesia comercial.A norte do Rossio é aberto o "Passeio Público"(1764),  zona de recreio da burguesia. Era um jardim gradeado, com cascatas, lagos com repuxos e coreto, que  posteriormente foi aberto às novas avenidas e aos futuros bairros construídos por uma burguesia em ascenção. A partir de 1780 aparece a iluminação pública da cidade e em 1801 as ruas passam a ter o nome afixado.

EVOLUÇÃO POST-POMBALINA
Após a vitória do Liberalismo e desde o termo da administração pombalina  a grandiosidade arquitectónica acompanha os edifícios públicos: Basílica da Estrela , Ópera de S. Carlos, Palácio da Ajuda. Os limites da cidade são então sucessivamente alargados sempre em "círculos" com centro na zona da Baixa.  O traçado das ruas obedecia a critérios resultantes da procura de habitação.
A construção do Teatro Nacional D. Maria II ( 1843-46), do Arqto. F. Lodi, em pleno Rossio Pombalino, com características neo clássicas, é uma ruptura com o período anterior. Surge um novo espírito de renovação e novos ideais estéticos. Aparecem jardins novos: S. Pedro de Alcântara, Estrela, Princípe Real, bem como a plantação de árvores no Rossio. Surge assim uma visão naturalista. O "Passeio Público"  gera uma avenida e o rompimento das perspectivas de desenvolvimento da cidade de uma forma nuclear radio concêntrica, é absolutamente inovador.
Um novo eixo de desenvolvimento seguir-se-ia à Avenida da Liberdade. A abertura da Rua Fontes Pereira de Melo que levou a expansão da cidade desde o Parque da Liberdade (hoje Eduardo VII) até ao Campo Grande, passando pela Rotunda de Picoas, Avenida Ressano Garcia (Av. República) e toda a planificação das ruas adjacentes, paralelas e perpendiculares num desenvolvimento ortogonal. Era o plano Frederico Ressano Garcia, engenheiro do município. Nascem as  designadas "Avenidas Novas", que definem o grande desafogo urbanístico da cidade de hoje.

ÉPOCA MODERNA
Depois da Iª Guerra Mundial, preenchem-se as malhas vazias resultantes dos traçados dos eixos das novas avenidas. A Avenida da Liberdade apresenta-se inequivocamente como eixo primordial da nova cidade. Aparecem então edifícios como o Hotel Palace e o Palácio de Castelo Melhor (Foz). O estilo Arte Nova (tardio) revela-se em obras como o Cinema Tivoli do Arquitecto Raul Lino, o Eden Teatro e o Hotel Vitória do Arquitecto Cassiano Branco.  Surgem novos bairros com imóveis de rendimento, ocupados por uma classe média em expansão. O equipamento de lazer constitui-se por logradouros ajardinados.
A partir da década de 30 o arquitecto começa a ter uma maior intervenção na construção de edifícios novos. É desta época a abertura da Alameda Dom Afonso Henriques.
É o período Duarte Pacheco, Presidente da Câmara e posteriormente Ministro das Obras Públicas (1930-43).  Constroem-se novos bairros assumidamente desenhados pelos novos urbanistas de ruas largas e homogeneidade do desenho das fachadas, (vulgarmente designados de estilo Português Suave).
Sob a orientação de Duarte Pacheco, o Município  decide-se pela criação de um parque verde em Monsanto. Atravessado por uma auto-estrada que liga Lisboa ao Estádio Nacional é feita a arborização do parque instituindo um sistema jurídico de expropriação dos terrenos especialmente para esse efeito.
Reconhecia-se então que um plano de urbanização para a cidade teria de envolver um programa de criação de parques e jardins, não só como fundamento de beleza e aprezamento dos seus frequentadores, mas também como reserva de ar puro imprescindível à vida na cidade.
São criados novos bairros (Encarnação e Alvalade) antecessores do aparecimento e desenvolvimento da urbanização de Olivais e Chelas, numa aplicação dos princípios preconizados na Carta de Atenas.É a época dos grandes blocos residenciais livres e separados por zonas verdes, procurando uma maior exposição solar e melhor arejamento segundo os modelos já ensaiados noutros países. É também desta época o arranjo ajardinado das praças que resultam da composição urbanística,  com o objectivo de criar zonas de lazer e jogos infantis.Mais recentemente aparecem iniciativas municipais de conjunto coabitando com urbanizações privadas localizadas aqui e ali, que preenchem os espaços "ainda livres", das zonas limítrofes da Lisboa Cidade.
E hoje, esta cidade pensada e construída seguindo modelos e planos de urbanização, transformou-se numa das mais belas capitais da Europa preferida por muitos turistas que a 
visitam para além da 1ª vez. A cidade de Lisboa está definitivamente na moda! Esta preferência é facilmente perceptível quando se deambula nas ruas da cidade e se observa o fluxo de turistas de múltiplas nacionalidades e o seu ar de satisfação. As inúmeras reportagens dos media mostram o que pensam estes forasteiros do mundo e o que mais apreciam por cá. Referência à beleza e à luz da cidade são constantes, e carregados de elogios estão também o fado e a soberba gastronomia lusa. A cidade aberta ao rio e ao mar é outra das preferências de quem nos visita. Pessoas de todo o mundo apreciam a calma da cidade, a autenticidade das gentes, a tolerância e o romantismo. Na expectativa de satisfazer cada vez mais os habitantes e também os que por cá se passeiam a autarquia da cidade tem concretizado esforços consideráveis para mudar a faceta da cidade e “internacionalizar” e tornar mais próximos alguns dos locais emblemáticos 
da cidade. Hoje temos uma frente ribeirinha a ganhar algum ordenamento, uma praça do Comércio limpa e cativante, com restaurantes e esplanadas que oferecem serviços diversificados e que permitem aos passeantes experiência gastronómicas exigentes ao mesmo tempo que apreciam o rio e se deleitam com o magnífico sol português. Os atributos e elogios não são exagerados pois Lisboa foi recentemente considerada a quarta cidade mais bonita do mundo, estando no top 10 das cidades mais belas do planeta, elaborado pelo site de viagens “UrbanCityGuides”. Por todas estas razões vale a pena, mesmo para os que cá moram, ser turista em Lisboa. Eu passeio várias vezes pela cidade e encontro sempre algo diferente para apreciar. Recentemente 
numa quente noite de agosto resolvi conhecer um pouco da cidade à noite, e desafiado por uma amiga iniciámos o tour pelo bairro de Alfama. Jantámos no restaurante Páteo 13, precisamente no nº 13 da Calçadinha de Santo Estevão. Trata-se de um espaço com mesas ao ar livre apenas com a cobertura da copa de uma árvores e de alguns chapéus. A decoração faz-se com fitas e adornos dos santos populares. As vastas iguarias que vão desde as escolhas de variados tipos de peixes e carnes, estão à vista do cliente, pelo que após a escolha, se fica em contagem decrescente para degustar os deliciosos pratos. O prato típico da casa é a tábua (entrecosto de porco na brasa). Foi o que acabámos por escolher e apreciar à mão em doses gigantes. Após o jantar continuámos pelos becos e ruelas passando pela Rua da Regueira, Beco dos Cativos, Travessa e largo de São Miguel. Por estes locais a calçada é típica e irregular, sentem-se os aromas das 
cozinhas dos restaurantes que proliferam por cada canto e aqui e ali ouvem-se vozes roucas, por vezes límpidas ou mais nostálgicas de quem por aqui canta o fado. Os prédios deste 
bairro vivem literalmente paredes meias uns com os outros e a separá-los existem apenas pequenas fendas, algumas delas com menos de 1 metro de distância. À luz dos conceitos atuais quer da aquitetura, quer da estética urbanística ou mesmo da segurança, é difícil perceber a conceção de quem idealizou e projectou estas construções. Para vencer o declive da encosta existem muitas vezes degraus e escadarias que sobem e descem e permitem atravessar as fendas inter-prédios. Estes recantos permitem jogos de luz e de sombras únicos que fazem as delícias dos amantes da fotografia. Aqui e ali encontram-se fontes de água e arcos que hoje servem de abrigo a quem não tem outro tecto. Encontrámos esse exemplo no arco do rosário, a seguir à rua da Judiaria. Quando demos por nós estávamos no Largo do Chafariz de Dentro, zona bem mais plana contígua a Santa Apolónia. A grande atração desta zona é o Museu do Fado e um pouco mais à frente a casa dos bicos que hoje alberga a Fundação do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Pelas 
palavras do próprio escritor inscritas ao lado da oliveira onde jazem as suas cinzas, “não subiu para as estrelas se à terra pertencia”. Caminhando em direcção à baixa encontra-se mais um ícone da arquitectura da cidade, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, cujo arco que ornamenta a entrada e já referenciado em outro post é um deslumbramento arquitectónico. A caminhada desagua na nossa magnífica praça do Terreiro do Paço, das únicas da Europa aberta ao rio. Aqui há tempo para apreciar um gelado italiano e continuar o percurso pelas ruas da baixa lisboeta onde se matam saudades dos tempos de outrora nas montras das lojas que vendem produtos tradicionais, como é o caso da Loja PortugueZa onde ainda é possível encontrar o chocolate em pó Coqui, a pasta dentífrica Couto, ou o pião de corda. Mas apesar do passado ser 
importante para pensar o futuro, é neste que está a continuação dos tempos pelo que é preciso olhar em frente e apreciar com igual vontade e aceitação as lojas retro que mostram, por exemplo, o Galo de Barcelos de cores vivas e fluorescentes com a ousadia de que o passado pode ser reinventado dando uma nova definição à tradição que estará sempre presente no futuro. Isto é Lisboa!